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23 setembro 2010

Um apelo à tolerância

“(…) que as pequenas diferenças entre as vestimentas que cobrem nossos débeis corpos, entre todas as nossas línguas insuficientes, entre todos os nossos usos ridículos, entre todas as nossas leis imperfeitas, entre todas as nossas opiniões insensatas, (…), que todas essas pequenas diferenças que distinguem os átomos chamados homens não sejam sinais de ódio e perseguição (…)”
Voltaire*.
Se tem duas coisas que eu ojerizo nesse mundo, é o fanatismo e o preconceito. Seja ele religioso, antirreligioso, esportista, político, enfim, qualquer um.
Eu, particularmente, repudio qualquer tipo de radicalismo. Também evito fazer generalizações.
Se você quer saber por que eu estou falando sobre isso, eu digo. Sem problemas. É que hoje li um texto que me deixou 'intrigada' e com vontade de falar um pouco sobre esse assunto.  Um texto muito bom, por sinal.
Ateismo-4
O autor é um ateu, que clama outros ateus a "saírem do armário". Até aí, tudo bem. Porém a parte que me preocupou foi quando ele disse que "ideias e religiões não devem ser respeitadas". Acredito que dito assim, generaliza-se muito o fato. E fazer qualquer tipo de generalização, nunca é uma boa ideia.
No respectivo texto, o autor afirma que nós ateus "não devemos respeitar religião porra nenhuma". Se tirássemos essa frase do contexto, ela soaria como muito radical, não acham? No entanto, logo em seguida ele diz que as religiões não devem ser respeitadas, quando incitam guerras, misoginia, a homofobia, entre outras coisas. E aí, sou obrigada a concordar com ele. Nós ateus  não devemos ser coniventes com esse tipo de coisa.  Nem os religiosos sensatos deveriam ser também. 
Porém, não podemos generalizar. Isto é, precisamos entender que nem todo padre é pedófilo, nem todo muçulmano é terrorista, nem todo católico é homofóbico e nem todo evangélico é estúpido. Se fosse assim, esse mundinho aqui já estaria mais que perdido.
Há erros nas religiões? Claro que sim. Muitos erros. E o pior é que muitos deles nos afetam, mesmo que não sigamos religião alguma. 
A imposição “da religião” ainda é muito forte na nossa sociedade. Só pra citar como exemplo, a escola em que eu trabalho, tem o nome de um padre (Escola Estadual Padre ...); na farda tem a seguinte frase: "Educação e Fé". E eu, uma ateia, tenho que frequentar todos os dias uma escola com nome de padre e usar uma farda com essa frase estampada (ainda bem que o nome é bem miudinho, e quase ninguém vê... nem eu!). 
Se eu fosse radical, talvez eu já tivesse queimado a farda na frente da diretora evangélica...rsrs. Mas não sou. Uso a farda normalmente. Isso não me afeta em nada. Pra falar a verdade, nem lembro que aquela frase está ali, e para mim isso é até insignificante.
Por outro lado, se minha mãe quiser que eu vá à missa de 30º dia da morte de alguém da família, pra mim isso já não rola. Não me sentira bem em um ritual religioso hoje, seja ele qual fosse. Receber os vizinhos aqui em casa, para uma novena de Nossa Senhora não-sei-das-quantas? Pior ainda! A novena pode até acontecer, mas sem minha presença. De forma análoga, eu não iria a uma festa em que não me sentisse à vontade no local ou com as pessoas que lá estivessem ... Simples assim.
Daí eu me pergunto: será que eu estou sendo radical por causa disso? Eu acredito que não… Apenas estou usando meu direito de ir e vir, e “pegando um gancho”, de permancer ou não em um lugar que não me agrada.
historia_da_religiao
Há inúmeras coisas que eu não gosto e nem concordo nas religiões. Mas, a pior delas, é a intolerância. Quando você deixa de respeitar alguém porque ele segue outra religião, ou até mesmo porque ele não segue religião alguma, e tasca-lhe acusações, insultos, diz que ele tá errado, ou coisa parecida, está sendo intolerante. E vejam o que a intolerância religiosa já foi capaz de fazer no mundo...  É só ver quantas pessoas já morreram nas famosas "guerras-santas" ao longo da História da Humanidade... 
Se por outro lado sou ateia e faço a mesma coisa, ou seja, desrespeito quem segue qualquer tipo de religião, seja querendo impor meu ponto de vista, seja chamando de ingênuo ou burro quem acredita em Deus, estou sendo tão intolerante quanto o religioso supracitado. Imagine se eu fosse tentar mostrar às pessoas porque elas não devem acreditar em deus,  e de certa forma, quisesse forçá-las a abandonarem suas crenças. Eu não estaria desrespeitando o direito que  elas têm de crer no que quiserem? Como eu vou exigir de outra pessoa que ela respeite a minha “não crença”? Se eu critico alguém por fazer algo que considero incorreto,  porque  então irei fazer a mesma coisa que ele? Dessa forma eu não estaria me igualando a esse alguém?
Talvez os ateus "intolerantes" não joguem bombas, não acendam fogueiras para queimar crentes, nem organizem igrejas para roubar o dinheiro alheio. Porém, alguns deles, ficam simplesmente indignados porque a maioria das pessoas acreditam em um deus, que para eles não existe, e partem para a intolerância, para a ignorância e para o preconceito. E eu acho isso uma perca de tempo.  Sei que nem todos os ateus fazem isso, e que muitos respeitam a opinião alheia. Mas, já vi muitas falas preconceituosas e intolerantes vindas de ateus. Muitas discussões inúteis entre ateus e teístas. Coisas que realmente não levam ninguém, a lugar nenhum.
ateismo-vs-teismo1
Tá certo que num blog pessoal, podemos falar o que quisermos. As pessoas lêem e comentam se quiserem também. Se o que eu falo ou deixo de falar incomoda, isso não é problema meu. Mas, o que não posso e nem devo fazer, é ofender pessoas que nem ao menos conheço, utilizando “conceitos generalizados”: todo teísta é burro; todo ateu é arrogante; todo religioso é isso ou aquilo. Até porque entre dizer o que se pensa e querer fazer com que os outros pensem o mesmo que você, há um abismo imenso. O problema é que ninguém sabe respeitar aquela regrinha básica de convivência social, que diz assim: "o seu direito só pode ir até onde começa o meu". E por não conhecer os seus limites e, muito menos, os limites dos outros, muitas pessoas abusam e “passam por cima” dessa regrinha tão fácil de entender...
Contudo, usando responsabilidade e respeito, devemos sim aproveitar o fato de vivermos em um mundo em que ainda há o mínimo de liberdade de expressão. Devemos falar o que pensamos, debatermos ou seja lá o que for, porém, sem sermos intolerantes, preconceituosos, prepotentes e radicais. 
Eu, enquanto ateia “fora do armário”, estou aqui falando um monte de coisas; expondo minha opinião “para o mundo”. Se você está lendo, é porque quer. Tenho certeza que não te forcei a fazer isso.  Para muitos, tudo isso que falei pode ser besteira. Para outros pode ser até ser importante. Mas, para mim, é apenas algo que me deu vontade de falar. Nesse momento, estou fazendo uso da minha liberdade de expressão. E falar livremente, mesmo que ninguém concorde comigo, é um direito que você nem ninguém pode me tirar. Assim já dizia Voltaire.
Pouco me importa se Richard Dawkins, ou algum ‘admirador’ das ideias dele, diga que eu não sou ateia coisa nenhuma, por pensar dessa forma. Porque eu sou ateia sim. E tenho muita convicção do meu ateísmo. O problema é que eu procuro conciliar esse ateísmo com meu caráter.
 
*Ignorância, o preconceito e o fanatismo. Voltaire dedicou parte de sua vida na luta contra essa “trinca”, em favor da liberdade, da justiça e da tolerância.
 
Assinatura

4 mil pitacos!:

deusilusao disse...

Olha, eu até concordo com muita coisa que você abordou aí.

Mas eu acho que existem certos níveis de intolerância. Eu, por exemplo, não tolero ouvir calado um crente chegar pra mim pra desfiar as fantasias ridículas que ele cultua. Eu não parto pra briga, mas lhe digo umas poucas e boas. Não escuto calado versículos bíblicos. Eu sempre "comento", e os meus comentários são sempre agressivos ao crente, porque são racionais.

Isso faz de mim um intolerante? Sim, eu acho que faz.

Mas é justamente graças a esse tipo de intolerância que nós podemos dizer essas coisas, hoje em dia, e continuarmos vivos.

saracura disse...

Querida Beth! O que li parece mostrar que o autor não está falando de respeito propriamente dito..

É que quando falamos algo que vem a ser diferente do que o crente pensa, ele já chama isso de falta de respeito, quando na verdade é apenas uma manifestaçao das idéias.

O que ele que dizer, acho, é que no ato de dizer que não crê e não acha algum deus importante é como se fosse desrespeitoso!

Eu vou à missa, sem comungar, vou ao culto, vou à sessão espírita, mas não creio. Faço por amizade, mesmo não crendo! É uma forma de aceitação.

Adoro a manisfestação cultural dos costumes negros e penso que são discriminados....mas eu assisto e não acredito..

Eñtão do ponto de vista do crente, é proibido qualquer escolha que não seja a dele!

abração

Paulo Sutil disse...

Olá, concordo e muito com seus termos. Mas também concordo com a frase "Ideias e religiões não merecem respeito", mesmo fora de contexto. Penso que merece respeito aquele que acredita na ideia e na religião. Posso odiar firmemente o cristianismo, mas isto não me dá o direito de desrespeitar um cristão. O problema é: o simples fato de discordar dele já é insulto. Como resolver? Tolerância seria um começo...

Paulo Sutil disse...

Seu texto foi por mim compartilhado no facebook e rendeu conversa. Conversa esta que me inspirou a também escrever sobre intolerância. O link segue abaixo:

http://paulosutil.blogspot.com/2012/01/intolerancia.html

Interesso em saber a sua opinião. Até.

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